Silvio Oliveira

Ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!

Miguel de Cervantes

Nasci em Salvador, filho de Silvério Rodrigues de Oliveira e Maria Dasdores de Oliveira, estudando sempre em Escolas Públicas. A ênfase vai para o “estudando” também. Eu e meus irmãos estudamos formalmente. Meus pais tiveram experiência em escolas, mas consideravam importante que os filhos tivesses “estilo”. Para mim é relevante o fato de meu pai, vaqueiro, ter saído da cidade de Castro Alves para exercer em Salvador a profissão de pedreiro; minha mãe é oriunda de Castro Alves; em Salvador realizou serviços de auxiliar em residências. Penso que seja importante frisar que a minha avó materna fora sequestrada por um fazendeiro, que já era casado, obrigada a viver com ele, e assim tiveram muitos filhos. Minha avô era noiva de um rapaz, Martiniano, que foi escorraçado da história pelos capatazes do “coronel”. Antes disso, geraram minha mãe, única filha do casal. Imaginem: ela teve que morar na casinha dos fundos com os irmãos, ao lado da família do coronel. Meu pai era um excelente contador de histórias e conseguiu convencer minha mãe a vir para Salvador, na promessa de que possuía uma casa estabelecida. Na verdade, ele tinha uma casinha de um único cômodo em Plataforma e muito amor. Acredito que essa pequena história define a linha de memória familiar e os posicionamentos subsequentes dos filhos.

Embora pai e mãe nunca tenham estudado em instituições, aprenderam a ler e escrever e incentivaram grandemente os filhos aos estudos.

É preciso dizer que o título deste resumo de vida: uma síntese de vida nada mais é do que “se apresentar”, o que no meu ambiente familiar correspondeu sempre a “se mostrar”, que significa ser um tanto vaidoso. Sim, tenho orgulho e vaidade decorrentes da história desse casal.

Iniciei meus estudos primários em 1976. Meus estudos secundaristas centraram-se primordialmente em estudos da Química e posteriormente em estudos da Estatística. Com isso, explico que me voltei aos estudos literários propriamente após ingressar na Universidade.

Em 1987, ingressei no Curso de Letras Vernáculas com Grego da Universidade Federal da Bahia, concentrando meus estudos primeiramente nas línguas e literaturas clássicas e posteriormente na literatura nacional. Conclui o curso de licenciatura em 1991 e o de Bacharelado em inícios de 1992. A formação em Licenciatura em Letras Vernáculas habilitava-me a lecionar tanto as línguas clássicas (Grego e Latim) quanto às literaturas de língua portuguesa.

No mestrado, desenvolvi dissertação que buscou analisar aspectos intertextuais presentes no Romance Memorial do Fim, do escritor paraense Haroldo Maranhão. Procurei descrever e tecer considerações a respeito do procedimento conhecido por pastiche. Inaugurei assim uma atenção acadêmica às questões intertextuais nas várias linguagens, especialmente na literatura, no cinema, na música e nos quadrinhos.

Procurei perceber como, retomando textos de outros autores, em particular Machado de Assis, Haroldo Maranhão inscreveu-se como sujeito em um tempo que assinala “a morte do autor”, morrendo e renascendo, refazendo o fim e fazendo renascer também o autor modelo.

No doutorado, a minha tese avaliou as repercussões literárias e biográficas da obra de Luiz Gama, poeta negro, baiano do século XIX. É preciso ressaltar que, além de ser um dos fundadores de uma percepção afro na literatura escrita, Luiz Gama integrou grupos que produziam textos vinculados a outras linguagens: caricatura e música notadamente.

Busquei anotar na tese de que modo a figura de Luiz Gama foi construída e reconstruída constantemente a partir de sua carta autobiográfica e como a sua produção poética alimentou a forja dessa mesma figura, que se expande por várias apropriações, inclusive de grupos negros.

Sou quadrinhista, desenvolvendo histórias das artes seqüenciais, de quando em vez apresentadas em classe como apoio pedagógico.

A minha experiência com a Literatura Inteira motivou-me a investir em novas ações permeadas de afetos.

Sílvio Roberto dos Santos Oliveira